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A dor de perder uma filha e a necessidade de voltar a viver


(Perfil literário feito para a aula do Grossi, último para a facul - USCS)


Ela senta na poltrona vermelha da sala e olha para o porta-retrato que está exposto na estante, ao lado da televisão. Olha para mim e diz, quase suspirando, que não vai ser fácil sentar e relembrar a dor que sentiu na noite de 17 de maio de 2008.

Já se passavam das duas horas da manhã, quando o telefone tocou na sala. Helena acordou assustada, olhou para o marido que também tinha acordado com o barulho e, juntos disseram: “É a Carol!” Paulo, levantou da cama e correu até o telefone. Do outro lado da linha, ouvia-se barulho de sirenes, pessoas falando e a voz de um moço que se identificou como o bombeiro Fonseca.
“É da casa de Caroline Mendrado?”
“Sim, o que aconteceu? É o pai dela!”
“Senhor Paulo? Aqui é o bombeiro Fonseca. Infelizmente não tenho notícias boas. Preciso que o senhor e familiares compareçam ao Pronto Socorro da Vila Alpina.”
“O que aconteceu com a minha filha? Cadê ela? Deixa eu falar com ela!”
Sem muitas voltas, o bombeiro disse apenas que a Carol, como é chamada até hoje pelos pais, estava com mais de 50% do corpo queimado, que ela já não sentia mais dor e só falava que precisava vê-los.
Quando Paulo desligou o telefone, sentiu seu mundo desabar. As lágrimas vieram sem pedir permissão e ele só conseguiu gritar de dor. O bombeiro não tinha dito, mas ele sabia que tinha perdido a filha...
Nem Helena, nem Paulo tinham condições de reconhecer o corpo da filha. Marcelo, o irmão mais velho, foi quem apareceu na salinha minúscula para olhar para a irmã pela última vez. Segundo o bombeiro, Caroline estava na casa do namorado, quando os dois foram surpreendidos pelo ex-cunhado do moço, que chegou já espalhando álcool pela casa inteira. Parecia vingança. E a menina estava apenas na hora e no lugar errados.

Como aceitar essas coisas da vida? Helena conta com os olhos vermelhos de lágrimas que nunca imaginou que enterraria um filho. “A Carol tinha vida, amava viver com a família e os amigos. A minha filha só tinha 24 anos, meu Deus... Por quê? Por que uma morte assim, tão cruel, tão desumana?”
O enterro foi feito com o caixão lacrado, com uma foto da moça sorridente em cima. Os pais, o irmão, familiares e amigos não aceitavam a morte trágica de Carol. Na época, tentaram fazer justiça. Procuraram programas de televisão para achar o autor das mortes daquela noite. A única coisa que se sabe é que, na época, ele fugiu. Helena não sabe, ou não quer lembrar, o nome do indivíduo. E hoje, prefere deixar nas mãos de Deus o destino desse “ser humano que não sei se sabe o que significa ser um humano de verdade”.
Os próximos dias foram de terror, angústia e dor. “Eu não tinha ideia dos passos que teria que dar para a minha vida continuar. Na verdade, eu não queria acordar nunca mais. A minha menininha já não estava mais aqui e não via motivos para continuar levantando da cama todos os dias.”
A primeira atitude do casal foi colocar uma placa no portão para vender a casa e as lembranças que doíam, que rasgavam o coração, que torturavam suas vidas. “Foram os dias mais doídos, mais terríveis das nossas vidas. Não tínhamos vontade de lutar por nós mesmos. Até que o Marcelo marcou uma consulta com o psicanalista dele para mim e para o pai. Relutamos o máximo que pudemos, mas pelo nosso filho, decidimos ir.”
Helena conta que o primeiro passo foi o mais difícil de ser dado. Afinal, nem ela, nem o marido queriam cutucar a ferida, expor para alguém suas dores. Mas entenderam, depois de algum tempo, que para aceitarem toda a situação, era preciso mexer na ferida. Falar, lembrar, chorar, gritar (se preciso), reviver aquela noite e os próximos dias do ano de 2008 seria um tipo de antídoto.
“Nós tínhamos o Marcelo, decidimos que iríamos viver por ele. Os dias não seriam mais como tinham sido antes. Nossa família nunca mais estaria completa, mas era preciso querer viver. Eu não tinha forças para encorajar o Paulo, mas com o tempo, enxerguei que eu precisava continuar sendo o porto seguro dele como eu já tinha sido nos outros anos, desde namoro e casamento.”
As coisas da Carol foram doadas para instituições e pessoas que precisavam. Helena acredita que foi nessa etapa que se sentiu forte o suficiente para levantar a cabeça. Era preciso se desligar dos pertences da filha. Roupas, cama, objetos pessoais, sapatos, maquiagem, ursinhos de pelúcia... Tudo foi doado. “Guardei em uma caixa as fotografias e seu ursinho de pelúcia que tinha desde os três anos de idade. Era um mimo com o Frederico que eu não tive coragem de colocá-lo no meio das doações.”
A casa da família é simples e pequena, mas nota-se em cada canto uma foto de Carol. “Hoje, as lembranças não maltratam tanto como antes. É lei natural da vida que o tempo cure e, quando a saudade aperta, eu agarro a primeira foto dela que vejo pela frente, fecho os olhos e me desligo de tudo. Sei que, onde ela estiver, estaremos juntas ali, naquele momento.”

Os dois dias de entrevista foram intensos e, em cada pergunta feita, eu me sentia um monstro por trazer de volta à tona as lembranças que já estavam guardadas há algum tempo no íntimo de Helena. Devo ter deixado isso muito transparente, pois ao me despedir no final, ela me abraçou e com os olhos cheios de lágrimas, sussurrou em meu ouvido: “Obrigada. Essa foi a primeira vez que consegui relembrar e recontar essa parte triste da minha vida e, no final, me sentir leve, em paz comigo mesma. Devo estar subindo um degrauzinho no aprendizado da vida. E por mais que você pense que não vai conseguir sobreviver, existe o tempo que ameniza e te ensina a ser forte...”

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